Festival dos Festivais

22 22+00:00 outubro 22+00:00 2011

Em fevereiro de 1965, a TV Record, que havia entrado na década de 1960 como líder absoluta, amargava o terceiro lugar nas pesquisas de audiência. A estratégia para tentar reassumir a liderança incluiu a formação de um elenco com as principais estrelas do momento — e a grande estrela era Elis Regina. Depois da performance de Elis em Arrastão, no 1o Festival da TV Excelsior, Paulo Machado de Carvalho, diretor da Record, reuniu todas as forças para levá-la para a emissora. Conseguiu. Elis foi contratada por 6 milhões de cruzeiros mensais, valor nunca pago a outro artista contratado por uma TV nacional. A ela, juntaram-se Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso, o já popular Roberto Carlos e muitos outros.

A Record passou, então, a produzir uma série de programas musicais que, gravados no Teatro Record, na rua da Consolação, em São Paulo, surtiram o efeito esperado: levantaram a audiência. De quebra, constituíram um terreno fértil para a música, que o produtor Solano Ribeiro tratou de aproveitar. Decepcionado com a influência do patrocinador nos resultados e rumos do Festival da TV Excelsior, idealizado por ele, Solano pediu as contas e procurou a Record. Paulo Machado aceitou bancar o projeto, desde que a diretoria da TV — ele — participasse diretamente da organização. Solano aceitou, só não abriu mão da imparcialidade da comissão julgadora, o que foi resolvido entregando-se aos jurados as partituras sem os nomes dos autores. Assim, em janeiro de 1966, a TV Record anunciou o 2o Festival da Música Popular Brasileira, previsto para acontecer em setembro daquele ano.

Segunda edição, sim. Porque a primeira, embora pouca gente se lembrasse, havia ocorrido em 1960, transmitida somente pelo rádio e sem grande repercussão. Portanto, na chamada “era dos festivais”, o de 1966 é o que marca o início do estrondo que foram os promovidos pela TV Record: a consolidação dos consagrados Geraldo Vandré, Chico Buarque, Elis Regina e Jair Rodrigues, as guitarras elétricas do tropicalismo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé, o samba de Martinho da Vila, o rock dos Mutantes, as torcidas organizadas, os aplausos e as vaias como uma instituição.

Foram quatro anos de festival, e os de 1966 e 1967, os mais vigorosos. Em 1968, a emissora cedeu à pressão dos descontentes dos anos anteriores e aceitou adotar um complicado esquema de avaliação, com júri especializado e júri popular, em uma operação com nada menos que 98 jurados, além do público, que podia votar por cupom. Com isso, a Record começou a perder o controle do festival na sua concepção original. O fim parecia inevitável. Em 1969, apesar dos incêndios que destruíram o edifício da emissora na avenida Paulista e os teatros na rua da Consolação e do centro, a diretoria da TV resolveu apostar em mais uma edição.

Dessa vez, sem Solano Ribeiro, Elis e compositores e intérpretes dos outros anos, cada um com seu motivo: compromissos profissionais no exterior ou fuga da ditadura, com a promulgação do AI-5. Tentando salvar a audiência, a produção do festival inventou debates após a apresentação das músicas. Eram para ser polêmicos, com o coitado do compositor como vítima, mas beiraram o ridículo. Foi o último Festival da Record.

DISPARADA VERSUS A BANDA (1966)

A segunda edição do Festival da TV Record, em 1967, foi marcada por uma grande disputa: Disparada, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, interpretada por Jair Rodrigues, versus A Banda, de Chico Buarque, defendia por Nara Leão. O alvoroço nacional era tamanho que os jornais compararam a final do festival a uma final de campeonato de futebol. Na votação, venceu A Banda — por mais que alguns jurados achassem Disparada a melhor música. Chico, ao saber do resultado nos bastidores, bateu o pé. “Se a minha música vencer sozinha, eu devolvo o prêmio em público”, disse. Diante do impasse, o júri optou pelo empate.

A GUITARRA ELÉTRICA (1967)

O 3o Festival começou com uma novidade: os próprios compositores poderiam ser os intérpretes. Essa liberdade permitiu apresentações históricas, como a de Gilberto Gil e Os Mutantes em Domingo no Parque e Caetano Veloso em Alegria, Alegria, ambos introduzindo a guitarra elétrica na música popular brasileira e dando os primeiros passos para o que viria a se concretizar como o tropicalismo no ano seguinte. Outras músicas que fizeram história nesse festival foram Roda Viva, de Chico Buarque, e O Cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, defendida por Elis Regina, eleita a melhor intérprete, além da vencedora Ponteio, de Edu Lobo, apresentada pelo autor e pela cantora Marília Medalha.

TOM ZÉ, ROCK E SAMBA (1968)

A quarta edição do Festival da TV Record ainda conseguiu emplacar. Tom Zé foi o grande nome, vencendo com São, São Paulo Meu Amor, além de ter a parceria com Rita Lee, 2001, na quarta colocação pelo júri especial, apresentada por um grupo de rock irreverente que começava a fazer sucesso: Os Mutantes. Martinho da Vila, embora não tenha ficado entre os primeiros colocados, viu sua carreira deslanchar depois de cantar o samba Casa de Bamba. Mas a grande atração, em interpretação, foi a performance enfurecida da baiana, até então tímida, Gal Costa.

A VEZ DO PAULINHO (1969)

O quinto e último Festival da Música Popular da TV Record, em 1969, foi um ringue no qual a luta pela audiência foi ao extremo do patético, com debates que mais pareciam roda de fofoca e a pouca participação do público, que não chegou a preencher os 400 lugares da platéia. Mesmo assim, o festival deixou um saldo positivo para a música brasileira, com a vitória de Paulinho da Viola, com Sinal Fechado, e o prêmio de melhor letra para Gonzaguinha, com Moleque.

por Maria Dolores

 

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